psicografia

i

porque não estaciono em único vício

que oscilo entre sua diabólica sutileza

fascínio pelo caótico quase fictício

alguma lucidez e a morte por beleza

ii

você não precisa me alertar

do atrito no caminho

que meus calos já conhecem bem

você não precisa me lembrar

que sua busca por carinho

é por outra e mais ninguém

eu não preciso ser acolhida

ouvir em que estante você me colocaria

se já tivesse te elegido para salvar minha vida

você saberia

hesitante

talvez se eu tivesse

cabelo liso ou enrolado em vez desse

indeterminado

se fosse leitora assídua em vez de ocasional ou tivesse

na memória a saga de um vampiro adolescente

em vez das memórias de um velho alcóolatra e doente

talvez se não me entediasse fácil e não vivesse

trocando de hobbies e paixões o tempo inteiro

se não quisesse às vezes meditar

e também acender um isqueiro

talvez se eu decidisse

logo a minha carreira

escolhesse entre a arte ou viver numa banheira

talvez se tivesse ainda o encanto da ingenuidade

ou o mistério da maturidade em vez da ansiedade

dos vinte e poucos

talvez se não fosse louca

se usasse óculos espertos ou tivesse a imaginação oca

eu te prenderia mais do que faço não sendo

uma coisa nem outra

estante

sinto falta das graças que você fazia

de quando eu brigava e você nada dizia

de planejar a decoração da nossa casa em segredo

sentir medo

e te lembrar que nossas comidas

estariam sempre cruas

não sei se queria mais ter você comigo

ou uma estante cheia de coisas suas