razão

além de você ser mudo

há também tantas desculpas

não são meus seus dons inatos

nem meu timbre é agudo

como das moças ou das músicas

que compõem seus papos chatos

abaixei o meu escudo

assumi todas as culpas

pra me restarem seus hiatos

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silêncio

não deve ser aquilo que prometeram catulo

e as vozes dos bem resolvidos

não deve ser a calma de quando o medo é nulo

e há explosão dos sons da música, dos risos

 

se for, não é pra mim que você vai destinar

se toda vez eu tenho que pedir

se você não me deixa descobrir

se você me faz adivinhar

Saia

A escolha musical, cujo tema não remete nem com algum esforço da imaginação ao caos presente, segue em direção oposta ao fluxo de pensamentos pouco nobres e tão árduos. Evito o pesar ao pensar no destino das roupas que ficaram, nas cores que as complementariam, nas medidas e futuras costuras. Esqueço a vida que abrigavam. O futuro, de costume planejado de maneira privada, agora preenche sussurros. Anoto outras reações para encontrar as frestas que permitem desvendar o que elas também encobrem. Uma saída para governar o próprio atípico desespero, atuando o estágio almejado, distante dos outros quatro.

Perfume irritantemente doce; expressivas e pavorosas estampas; anéis que ocupariam 2/3 de qualquer dedo impedindo o cumprimento do papel das articulações; excesso de cosméticos próximos ao vencimento prometendo resultados contraditórios entre si e denunciando o excesso de vaidade sem cálculos. Todos, injustamente subestimados por qualquer viés religioso que atribui pouca relevância a tudo o que não vive, tornam-se aliados imediatos da sessão espírita da negação.

Em coro recusamos a relevância da variação de temperatura entre os invernos. Da necessidade de um preparo vocal que impeça qualquer timbre de seguir abafado. Da aleatoriedade de tudo, e real peculiaridade de nada. Gritamos pelo resgate, que apenas vem em repetidas madrugadas antecedendo soluços. Escolho a melodia que se encaixa no meu tamanho acanhado, e juntas nos perdemos uma na outra. Encolho-me à migalha que compreendo hoje ser.

A menosprezada saia branca que – diria qualquer especialista, familiar ou vizinha maldosa – não correspondia à idade de quem a vestia passa a ser digna da minha promessa de fazer existir uma ocasião que a acomode. Sinto seu cheiro e a textura, observo as cores que lado-a-lado competem com ela, mas a concorrência não parece justa. Aceito ser extensão, um simulacro de quem a terra agora sem pena devora. Reaprendo os passos que você de cor conhecia. Engulo – a seco, o gélido, o salgado. O céu, escuro, chantagista, me vigia; cúmplice desse quase-romance cotidiano demais para alguma sala de exibição.