Documento fictício 

Escrito como transcrição de gravações, Paisagem com dromedário, de Carola Saavedra, traz alusão ao luto sobre o qual discorre em seu próprio formato: o processo de “remoer” o que não faz mais parte do presente, de observar uma velha paisagem com nostalgia, a composição de si mesma dentro de outro momento em relação ao agora, de buscar no passado a compreensão do outro e um maior entendimento da própria mente. De ser plateia de si mesma.

A descrição do ambiente em que se encontra no momento das gravações, em minuciosa observação da beleza e grandeza de tudo o que a cerca, a autora atribui uma valoração ao que vive de imediato, uma necessidade de enaltecer o que ainda, de certa forma, lhe pertence, e permitir que esses elementos conduzam a narração de suas lembranças. Os pormenores do presente ressuscitam os do passado.

Com a descrição metalinguística da narração, feita com um gravador, há, através do texto e da voz que lhe teria dado forma, a consagração dos sons enquanto compositores da memória: são eles que permitem o retorno completo ao passado. As conversas se colocam como constituintes das personagens “reais” que conhecemos, como as percebemos em nosso imaginário. As percepções das performances humanas criam os cenários e o enredo de uma realidade que, ao escapar do presente e pertencer ao nada, é recriada ficcionalmente, mas carregando o peso de um documento. E seus significados particulares, de inquestionáveis verdades.

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