Annie who

Frases de efeito flutuantes em uma cabeça desperta costumam funcionar no início e no fim de todas as coisas – os meios são deixados para os poucos que se atreveram a sentir implosões. Quem se permitiria calcular de forma impessoal, sem tomar por amor, o que poderia ser facilmente classificado apenas como apego ou costume à dor? A enfadonha repetição de ideias, os caminhos para a formação de piadas que não surpreendem mais, os convites para o alívio lascivo de tensões. Tudo o que surge quando não há mais curiosidade ao se olhar para o inimigo com quem dividimos o sono.

Dizem que respostas estão na procura, talvez porque não se saiba o que fazer quando as pulsões estão desligadas, e a verdade – se existe – seja crua demais para manter devaneios intactos. A iluminação, que tira o espaço da ignorância, aponta cada vez mais detalhes, aparentes ou escondidos, de quem um dia foi o responsável por pernas bambas e demora para a escolha da nossa composição de cores. Os detalhes antes desencadeadores de inspiração, então, embrulham o estômago. O fim culmina involuntariamente na apelação das sutilezas do início, possivelmente porque o vazio presente remete à beleza do abandono da solidão.

A nostalgia de amar pode se assemelhar a uma espécie de imunidade emocional de quem não quer se ver, nem ao olhar para o passado, refém de alguém isento de qualidades. Então atribuímos poesia a comportamentos tão irritantes quanto comuns. O arrependimento, no entanto, é tão inevitável quanto a certeza da restauração da nossa estupidez com a romantização de outro humano tão idiota quantos os anteriores, mas que, é claro!, dessa vez será melhor – até que uma escovação longa ou rápida demais de dentes, um comentário inadequado em público ou um hobbie mal direcionado como colecionar informações sobre animais aquáticos transforme a explosão de cores no desejo mais ímpeto e sincero de aniquilação.

O enredo se repetiu com aquele que gostava de alugar VHS aos sábados na locadora(!) – me comprometi a conhecer todos os lançamentos daquele ano -, com o repetente da oitava série, com o professor de piano, com os achados dos festivais de música e os estranhos nos aplicativos-de-paquera.

Conheço a ficção. E da mesma forma que a inclinação desajeitada do seu corpo era traduzida às minhas pupilas como uma ideia brilhante, em breve desejarei os seus órgãos na minha geladeira a cada frase sua escolhida a dedo para a manutenção da minha insanidade, até que a lembrança da sua inconveniência se torne, como num truque traiçoeiro da mente, em centenas de mentirosos pedaços de perfeição. Em cacos metafóricos de vidro – que matam.

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