Documento fictício 

Escrito como transcrição de gravações, Paisagem com dromedário, de Carola Saavedra, traz alusão ao luto sobre o qual discorre em seu próprio formato: o processo de “remoer” o que não faz mais parte do presente, de observar uma velha paisagem com nostalgia, a composição de si mesma dentro de outro momento em relação ao agora, de buscar no passado a compreensão do outro e um maior entendimento da própria mente. De ser plateia de si mesma.

A descrição do ambiente em que se encontra no momento das gravações, em minuciosa observação da beleza e grandeza de tudo o que a cerca, a autora atribui uma valoração ao que vive de imediato, uma necessidade de enaltecer o que ainda, de certa forma, lhe pertence, e permitir que esses elementos conduzam a narração de suas lembranças. Os pormenores do presente ressuscitam os do passado.

Com a descrição metalinguística da narração, feita com um gravador, há, através do texto e da voz que lhe teria dado forma, a consagração dos sons enquanto compositores da memória: são eles que permitem o retorno completo ao passado. As conversas se colocam como constituintes das personagens “reais” que conhecemos, como as percebemos em nosso imaginário. As percepções das performances humanas criam os cenários e o enredo de uma realidade que, ao escapar do presente e pertencer ao nada, é recriada ficcionalmente, mas carregando o peso de um documento. E seus significados particulares, de inquestionáveis verdades.

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Annie who

Frases de efeito flutuantes em uma cabeça desperta costumam funcionar no início e no fim de todas as coisas – os meios são deixados para os poucos que se atreveram a sentir implosões. Quem se permitiria calcular de forma impessoal, sem tomar por amor, o que poderia ser facilmente classificado apenas como apego ou costume à dor? A enfadonha repetição de ideias, os caminhos para a formação de piadas que não surpreendem mais, os convites para o alívio lascivo de tensões. Tudo o que surge quando não há mais curiosidade ao se olhar para o inimigo com quem dividimos o sono.

Dizem que respostas estão na procura, talvez porque não se saiba o que fazer quando as pulsões estão desligadas, e a verdade – se existe – seja crua demais para manter devaneios intactos. A iluminação, que tira o espaço da ignorância, aponta cada vez mais detalhes, aparentes ou escondidos, de quem um dia foi o responsável por pernas bambas e demora para a escolha da nossa composição de cores. Os detalhes antes desencadeadores de inspiração, então, embrulham o estômago. O fim culmina involuntariamente na apelação das sutilezas do início, possivelmente porque o vazio presente remete à beleza do abandono da solidão.

A nostalgia de amar pode se assemelhar a uma espécie de imunidade emocional de quem não quer se ver, nem ao olhar para o passado, refém de alguém isento de qualidades. Então atribuímos poesia a comportamentos tão irritantes quanto comuns. O arrependimento, no entanto, é tão inevitável quanto a certeza da restauração da nossa estupidez com a romantização de outro humano tão idiota quantos os anteriores, mas que, é claro!, dessa vez será melhor – até que uma escovação longa ou rápida demais de dentes, um comentário inadequado em público ou um hobbie mal direcionado como colecionar informações sobre animais aquáticos transforme a explosão de cores no desejo mais ímpeto e sincero de aniquilação.

O enredo se repetiu com aquele que gostava de alugar VHS aos sábados na locadora(!) – me comprometi a conhecer todos os lançamentos daquele ano -, com o repetente da oitava série, com o professor de piano, com os achados dos festivais de música e os estranhos nos aplicativos-de-paquera.

Conheço a ficção. E da mesma forma que a inclinação desajeitada do seu corpo era traduzida às minhas pupilas como uma ideia brilhante, em breve desejarei os seus órgãos na minha geladeira a cada frase sua escolhida a dedo para a manutenção da minha insanidade, até que a lembrança da sua inconveniência se torne, como num truque traiçoeiro da mente, em centenas de mentirosos pedaços de perfeição. Em cacos metafóricos de vidro – que matam.

psicografia

i

porque não estaciono em único vício

que oscilo entre sua diabólica sutileza

fascínio pelo caótico quase fictício

alguma lucidez e a morte por beleza

ii

você não precisa me alertar

do atrito no caminho

que meus calos já conhecem bem

você não precisa me lembrar

que sua busca por carinho

é por outra e mais ninguém

eu não preciso ser acolhida

ouvir em que estante você me colocaria

se já tivesse te elegido para salvar minha vida

você saberia